segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O tabu que envolve os ritos de iniciação


Entrevistada: Mila Félix (MF)
Entrevistadora: Tânia Pereira (TP)

 
Os ritos de iniciação, servem para uma rapariga ser reconhecida como ser humano completo. Tem o objectivo de formar mulheres obedientes, dóceis, mesmo quando humilhadas e desumanamente tratadas pelos seus maridos, devem continuar a sorrir.
Este é o caso de Mila Félix ( nome ficticio), de 20 anos de idade,natural da província de Nampula,que participou num rito de iniciação, e agora vai falar sobre a experiência que ela adquiriu no local.
TP: Com que idade, e onde foste fazer os ritos de iniciação?
MF: Fiz os ritos de iniciação a dois anos atrás, quando tinha 18 anos de idade, na província de Cabo Delgado, distrito de Namunho, posto administrativo de Mahossine, numa aldeia um pouco afastada da “civilização”.
TP: Quem foi a pessoa responsável por te aconselhar a fazer os ritos?
MF: A minha mãe já tinha mencionado algo sobre o assunto mas eu sempre adiei, este foi até um dos motivos que me fez eu fazer os ritos tão tarde, por que de princípio eu tinha de ter ido logo após a minha primeira menstruação. Mas a principal pessoa que deu o “ ultimato”     ( com um sorriso), foi a minha avó paterna.
TP: Quantas meninas participaram nesses ritos?
MF: No total eramos quatro meninas, eramos todas primas.
TP: Sendo tu de Nampula, por que foste fazer os ritos em Cabo Delgado?
MF: Fui fazer em Cabo Delgado por que primeiro por que minha avo e os meus pais moram lá e por que minha avó preferia que ela fosse umas das nossas matronas.


TP: No total, quantas matronas vos instruiram?
MF: Eram cinco matronas, uma que é a superiora, a sua adjunta e mais três, que já passaram pelos ritos e ajudaram-nos a nos ambientarmos.
TP: Quanto tempo vocês ficaram lá?
MF: Ficamos um mês, e saimos mais cedo por que nós tinhamos de concorrer para os exames de admissão.
TP: Se não fosse por causa dos exames de admissão, quanto tempo vocês tinham que ficar lá?
MF: Tinhamos que ficar três meses.                                                                                           
TP: Qual foi  primeira impressão que tiveste no primeiro dia que chegaste ao local?
MF: A primeira impressão que tive foi de susto, por que só ouvia falar sobre o assunto, e mesmo só ouvindo falar já tinha um certo receio, por que as minhas primas que já tinham passado por aquilo vinham nos assustar, contando historias sobre termos que manter ralações sexuais lá mesmo, por que o objectivo era nós sairmos de lá mulheres capazes de formar um lar. O meu maior medo era esse, ser obrigada a manter relações com alguém que mal conheço, seria como se me tivessem violado.
TP: E isso que as tuas primas te contaram era mesmo verdade?
MF: Pura mentira, por que só para início de conversa não era permitido a presença de nenhum homem, eramos só nós e  as matronas. Realmente elas tinham razão em relação ao facto de sermos ensinadas a ser donas de casas, mas o facto de mantermos relações era simplesmente para nos assustarem, como é normal acontecer em qualquer situação. E a mim em particular assustou-me imenso.



TP: Qual era a vossa rotina?
MF: Infelizmente não posso revelar todos os passos dos ritos, por que não nos é permitido, apenas posso dizer que eramos aconselhadas a sermos mulheres muito obedientes no nosso lar, independentemente do que o nosso marido fizesse, não importava a gravidade do problema, nos teriamos de suportar, sem nunca pensar no divórcio como solução.
Posso também dizer que eramos ensinadas a não ver a nossa menstruação como um bicho de sete cabeças. Eramos acordadas todos dias muito cedo e sempre acordadas tão bruscamente que até assustava e diziam que faziam assim para nos livrarem dos nossos males passados, era uma forma de nos purificarem. Chegamos a ficar uma semana sem banho. Mas o principal ensinamento era sobre como fazer sexo com os nossos maridos.
TP: E vocês não podiam fazer nenhuma reclamação?
MF: Nem podiamos se quer pensar em fazer isso, e eu particularmente, já tinha pensado nisso várias vezes, mas as mulheres que já tinham passado por lá, nos aconselhavam a não o fazer, por que seria uma demonstração de fraqueza que iria se reflectir no nosso lar, ou seja, significaria que mesmo no meu lar, no primeiro problema que existisse entre mim e o meu marido, eu não saberia lidar com a situação e sairia correndo para casa dos meus pais, coisa inaceitável, pelo menos para uma mulher que já tenha feito os ritos de iniciação. E este era o motivo que me fazia suportar calada.
TP: Disseste algo sobre a mulher se tornar submissa em relação a tudo que o seu marido fizer, independentemente da gravidade. Concordas com isso, e qual a sua opinião sobre o assunto?
MF: Claro que não concordo, por que é inaceitável que no tempo em que  nos encontramos, em que as mulheres lutam pela igualidade de géneros sejamos submetidas a esse tipo de situaoções. E eu acho que podemos aguentar até um certo ponto, mas tudo tem limite, por isso não podemos aceitar ser humilhadas só por que nos ensinaram a ser assim. E em casos que eles nos batem, quer dizer que só podemos reclamar depois de estarmos no caixão ou internadas no hospital, por que a porrada foi demais?, não podemos permitir isso.
TP: Sei que nao podes contar detalhadamente sobre tudo que aconteceu lá, mas qual foi o pior momento que tiveste?
MF: Foi quando tivemos que ficar uma semana sem tomar banho, da uma sensação horrivel, e por mais que tu saibas que todas estavamos na mesma situação, não deixa de ser um momento constrangedor. Por que só o facto de pensar em ficar um dia sem tomar banho já é um bocado repugnante, imagina então uma semana. Foi o momento mais difícil que tive.
TP: E por que vocês foram obrigadas a ficar tanto tempo sem banho, qual era o objectivo disso?
MF: Temo que não posso falar sobre isso (desculapando-se).
TP: Quais eram os processo a que vocês eram submetidas?
MF: Que eu me lembre fizemos, a distensão dos grandes lábios, processo de iniciação do clítoris, pela purificação e tinhamos que ser tatuadas, mas não poderei explicar em cada processo o que se fazia por que também é segredo.
TP: No teu ponto de vista, quais são os aspectos positivos e negativos da práctica dos ritos de iniciação?
MF: Os aspectos positivos são os ensinamentos que adquirimos que não são poucos, por que é muito importante sabermos como agir com os nossos maridos, principalmente no campo, onde as raparigas são obrigadas a casar cedo. E os aspectos negativos é sem duvida a forma como o fazem, em outras palavras posso dizer que é um martírio tudo que nos fazem passar lá.
TP: Ao longo da entrvista falou sempre qua não podia contar detalhadamente sobre tudo que se passou nos ritos, por quê?
MF: Eu particularmente não sei muito bem os motivos, mas segundo as nossas matronas, dizem qua não se pode falar sobre o que se passou por lá, por que dá azar, mas nao foram muito profundas no tipo de azar que dá.



TP: O que tem a dizer para as meninas que ainda não fizeram os ritos?
MF: Não posso dizer para n~ao o fazerem como também nao posso incentivar a fazerem, isso depende da tua familia e se for uma familia em que se conversa e vocêd pode opinar sobre o assunto, só posso dizer que isso ja depende de ti. Se você acha importante para ti fazer, então és livre para fazer.

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