Entrevistada:
Mila Félix (MF)
Entrevistadora:
Tânia Pereira (TP)
Os
ritos de iniciação, servem para uma rapariga ser reconhecida como ser humano
completo. Tem o objectivo de formar mulheres obedientes, dóceis, mesmo quando
humilhadas e desumanamente tratadas pelos seus maridos, devem continuar a
sorrir.
Este
é o caso de Mila Félix ( nome ficticio), de 20 anos de idade,natural da
província de Nampula,que participou num rito de iniciação, e agora vai falar
sobre a experiência que ela adquiriu no local.
TP: Com que idade, e
onde foste fazer os ritos de iniciação?
MF:
Fiz os ritos de iniciação a dois anos atrás, quando tinha 18 anos de idade, na
província de Cabo Delgado, distrito de Namunho, posto administrativo de
Mahossine, numa aldeia um pouco afastada da “civilização”.
TP: Quem foi a pessoa
responsável por te aconselhar a fazer os ritos?
MF:
A minha mãe já tinha mencionado algo sobre o assunto mas eu sempre adiei, este
foi até um dos motivos que me fez eu fazer os ritos tão tarde, por que de
princípio eu tinha de ter ido logo após a minha primeira menstruação. Mas a
principal pessoa que deu o “ ultimato” ( com um sorriso), foi a minha avó paterna.
TP: Quantas meninas
participaram nesses ritos?
MF:
No total eramos quatro meninas, eramos todas primas.
TP: Sendo tu de
Nampula, por que foste fazer os ritos em Cabo Delgado?
MF:
Fui fazer em Cabo Delgado por que primeiro por que minha avo e os meus pais
moram lá e por que minha avó preferia que ela fosse umas das nossas matronas.
TP: No total, quantas
matronas vos instruiram?
MF:
Eram cinco matronas, uma que é a superiora, a sua adjunta e mais três, que já
passaram pelos ritos e ajudaram-nos a nos ambientarmos.
TP: Quanto tempo vocês
ficaram lá?
MF:
Ficamos um mês, e saimos mais cedo por que nós tinhamos de concorrer para os
exames de admissão.
TP: Se não fosse por
causa dos exames de admissão, quanto tempo vocês tinham que ficar lá?
MF:
Tinhamos que ficar três meses.
TP: Qual foi primeira impressão que tiveste no primeiro
dia que chegaste ao local?
MF: A
primeira impressão que tive foi de susto, por que só ouvia falar sobre o
assunto, e mesmo só ouvindo falar já tinha um certo receio, por que as minhas
primas que já tinham passado por aquilo vinham nos assustar, contando historias
sobre termos que manter ralações sexuais lá mesmo, por que o objectivo era nós
sairmos de lá mulheres capazes de formar um lar. O meu maior medo era esse, ser
obrigada a manter relações com alguém que mal conheço, seria como se me
tivessem violado.
TP: E isso que as tuas
primas te contaram era mesmo verdade?
MF:
Pura mentira, por que só para início de conversa não era permitido a presença
de nenhum homem, eramos só nós e as
matronas. Realmente elas tinham razão em relação ao facto de sermos ensinadas a
ser donas de casas, mas o facto de mantermos relações era simplesmente para nos
assustarem, como é normal acontecer em qualquer situação. E a mim em particular
assustou-me imenso.
TP: Qual era a vossa
rotina?
MF:
Infelizmente não posso revelar todos os passos dos ritos, por que não nos é
permitido, apenas posso dizer que eramos aconselhadas a sermos mulheres muito
obedientes no nosso lar, independentemente do que o nosso marido fizesse, não
importava a gravidade do problema, nos teriamos de suportar, sem nunca pensar
no divórcio como solução.
Posso
também dizer que eramos ensinadas a não ver a nossa menstruação como um bicho
de sete cabeças. Eramos acordadas todos dias muito cedo e sempre acordadas tão
bruscamente que até assustava e diziam que faziam assim para nos livrarem dos
nossos males passados, era uma forma de nos purificarem. Chegamos a ficar uma
semana sem banho. Mas o principal ensinamento era sobre como fazer sexo com os
nossos maridos.
TP: E vocês não podiam
fazer nenhuma reclamação?
MF:
Nem podiamos se quer pensar em fazer isso, e eu particularmente, já tinha
pensado nisso várias vezes, mas as mulheres que já tinham passado por lá, nos
aconselhavam a não o fazer, por que seria uma demonstração de fraqueza que iria
se reflectir no nosso lar, ou seja, significaria que mesmo no meu lar, no
primeiro problema que existisse entre mim e o meu marido, eu não saberia lidar
com a situação e sairia correndo para casa dos meus pais, coisa inaceitável, pelo
menos para uma mulher que já tenha feito os ritos de iniciação. E este era o
motivo que me fazia suportar calada.
TP: Disseste algo sobre
a mulher se tornar submissa em relação a tudo que o seu marido fizer,
independentemente da gravidade. Concordas com isso, e qual a sua opinião sobre
o assunto?
MF:
Claro que não concordo, por que é inaceitável que no tempo em que nos encontramos, em que as mulheres lutam
pela igualidade de géneros sejamos submetidas a esse tipo de situaoções. E eu
acho que podemos aguentar até um certo ponto, mas tudo tem limite, por isso não
podemos aceitar ser humilhadas só por que nos ensinaram a ser assim. E em casos
que eles nos batem, quer dizer que só podemos reclamar depois de estarmos no
caixão ou internadas no hospital, por que a porrada foi demais?, não podemos
permitir isso.
TP: Sei que nao podes
contar detalhadamente sobre tudo que aconteceu lá, mas qual foi o pior momento
que tiveste?
MF:
Foi quando tivemos que ficar uma semana sem tomar banho, da uma sensação
horrivel, e por mais que tu saibas que todas estavamos na mesma situação, não
deixa de ser um momento constrangedor. Por que só o facto de pensar em ficar um
dia sem tomar banho já é um bocado repugnante, imagina então uma semana. Foi o
momento mais difícil que tive.
TP: E por que vocês
foram obrigadas a ficar tanto tempo sem banho, qual era o objectivo disso?
MF:
Temo que não posso falar sobre isso (desculapando-se).
TP: Quais eram os
processo a que vocês eram submetidas?
MF: Que
eu me lembre fizemos, a distensão dos grandes lábios, processo de iniciação do
clítoris, pela purificação e tinhamos que ser tatuadas, mas não poderei
explicar em cada processo o que se fazia por que também é segredo.
TP: No teu ponto de
vista, quais são os aspectos positivos e negativos da práctica dos ritos de
iniciação?
MF:
Os aspectos positivos são os ensinamentos que adquirimos que não são poucos,
por que é muito importante sabermos como agir com os nossos maridos,
principalmente no campo, onde as raparigas são obrigadas a casar cedo. E os
aspectos negativos é sem duvida a forma como o fazem, em outras palavras posso
dizer que é um martírio tudo que nos fazem passar lá.
TP: Ao longo da
entrvista falou sempre qua não podia contar detalhadamente sobre tudo que se
passou nos ritos, por quê?
MF: Eu
particularmente não sei muito bem os motivos, mas segundo as nossas matronas,
dizem qua não se pode falar sobre o que se passou por lá, por que dá azar, mas
nao foram muito profundas no tipo de azar que dá.
TP: O que tem a dizer
para as meninas que ainda não fizeram os ritos?
MF:
Não posso dizer para n~ao o fazerem como também nao posso incentivar a fazerem,
isso depende da tua familia e se for uma familia em que se conversa e vocêd
pode opinar sobre o assunto, só posso dizer que isso ja depende de ti. Se você
acha importante para ti fazer, então és livre para fazer.
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